Renascimento
O etarismo é uma forma de discriminação baseada na idade, e infelizmente, é uma realidade no universo da tatuagem. Apesar da evolução constante da profissão e da ampliação do respeito pelo trabalho artístico, muitos tatuadores experientes relatam sentir-se à margem de um mercado que, cada vez mais, valoriza a juventude e a novidade. Essa exclusão reflete uma mentalidade que precisa ser questionada e transformada.
No contexto da tatuagem, o etarismo se manifesta em atitudes e percepções que desvalorizam profissionais mais velhos. É comum que clientes optem por artistas jovens, acreditando, erroneamente, que eles estão mais conectados às tendências ou possuem técnicas mais modernas. Esse preconceito ignora o valor da experiência e a profunda habilidade técnica que só o tempo e a prática podem proporcionar.
A cena da tatuagem no Brasil está repleta de histórias de artistas que, em seu auge, foram pioneiros, moldaram estilos e colocaram o país no mapa global da tatuagem. Muitos desses tatuadores, outrora celebrados em revistas especializadas, matérias de TV e reconhecidos em eventos internacionais, hoje encontram-se marginalizados. As razões são múltiplas, e o impacto desse descaso vai além da perda de oportunidades profissionais — afeta a saúde, a autoestima e a qualidade de vida desses veteranos.
Desconexão com o Mercado: Muitos tatuadores experientes não acompanharam a rápida evolução tecnológica, especialmente no que diz respeito às redes sociais. Plataformas como Instagram e TikTok se tornaram vitrines essenciais, mas nem todos têm afinidade ou conhecimento para utilizá-las de forma estratégica.
Estúdios como Vitrines de Juventude: A preferência por uma estética jovem também contribui para a exclusão. Alguns estúdios grandes priorizam o "sexy canvas" — corpos jovens, tatuagens minimalistas e um imaginário que conecta a tatuagem à juventude. Isso frequentemente relega tatuadores mais velhos a papéis secundários ou invisíveis, mesmo quando possuem portfólios robustos e carreiras sólidas.
Situação Financeira Precarizada: Muitos artistas que dedicaram décadas de suas vidas à tatuagem enfrentam dificuldades no final da carreira. Não raro, campanhas de financiamento coletivo (vakinha) surgem para custear tratamentos de saúde ou para apoiar familiares após o falecimento de um tatuador veterano. Essa realidade expõe a falta de uma estrutura de suporte para esses profissionais, que muitas vezes não tiveram acesso a direitos trabalhistas ou previdenciários devido à informalidade do mercado.
A cultura brasileira tem uma relação complicada com o envelhecimento. Em uma sociedade que valoriza quase exclusivamente a juventude, profissionais mais velhos, mesmo em áreas que exigem habilidades técnicas e criativas, são frequentemente vistos como ultrapassados. Essa mentalidade cria um ciclo de exclusão que afeta não apenas a tatuagem, mas várias profissões artísticas.
Na tatuagem, essa valorização da juventude é particularmente evidente. O mercado, cada vez mais influenciado por tendências globais e pelas redes sociais, favorece artistas jovens que se conectam com o público contemporâneo. Isso reforça estereótipos como:
Essa exclusão não é exclusiva da tatuagem. Áreas como moda, música e design enfrentam desafios semelhantes, onde a inovação é frequentemente atribuída apenas aos mais jovens. No entanto, na tatuagem, onde o trabalho está diretamente ligado à estética e à conexão pessoal com o cliente, o impacto é ainda mais visível. A valorização do "novo" pode obscurecer a qualidade e a profundidade que a experiência traz.
Enquanto no Brasil a idade muitas vezes é vista como um obstáculo, em outros países, a experiência é reverenciada. A cultura e os valores de cada sociedade moldam a maneira como os tatuadores veteranos são tratados, e o contraste é evidente:
No Japão, a tradição do irezumi valoriza profundamente os mestres da tatuagem. A idade é um símbolo de sabedoria e habilidade refinada. Tatuadores mais velhos, conhecidos como mestres, são procurados não apenas pela qualidade de seu trabalho, mas também pela honra de ser tatuado por alguém que representa a continuidade de uma arte milenar. Clientes chegam a esperar anos para conseguir uma sessão com esses mestres.
Na Alemanha, a idade é vista como um diferencial positivo. Clientes valorizam a precisão, a atenção aos detalhes e o compromisso com a qualidade que vêm de décadas de prática. Estúdios liderados por artistas veteranos são reconhecidos por sua consistência e excelência técnica.
A cena norte-americana celebra a longevidade na tatuagem por meio de convenções, documentários e eventos que destacam a trajetória dos veteranos. Tatuadores como Don Ed Hardy e Lyle Tuttle (†) foram reverenciados ao longo de suas carreiras e permaneceram influentes até o fim de suas vidas. A cultura do respeito ao legado é tão forte que veteranos frequentemente são homenageados como ícones da indústria.
O etarismo é uma realidade que afeta todos os profissionais mais velhos, mas quando se trata das mulheres, esse preconceito é amplificado por questões de gênero. No universo da tatuagem, um setor ainda marcado por desigualdades de gênero, as mulheres enfrentam barreiras específicas que tornam o impacto do etarismo ainda mais severo. Aqui estão as razões pelas quais as mulheres sofrem mais com o etarismo e como isso afeta suas carreiras.
Na sociedade, as mulheres são frequentemente avaliadas com base em sua aparência. Isso cria uma pressão adicional para as tatuadoras, especialmente em um mercado que, por vezes, glamouriza a juventude.
Com o passar do tempo, muitas mulheres tatuadoras encontram dificuldades para manter sua visibilidade no mercado, independentemente da qualidade de seus trabalhos. Isso ocorre por uma combinação de fatores:
Embora a tatuagem seja uma forma de arte criativa e aberta à diversidade, ela ainda carrega resquícios de um passado dominado por homens. Isso cria uma base de desigualdade que amplifica o impacto do etarismo para as mulheres.
Além dos desafios profissionais, as mulheres frequentemente enfrentam pressões sociais e familiares que podem dificultar ainda mais sua permanência no mercado.
Outro fator que agrava o etarismo para mulheres no mercado de tatuagem é a sexualização. A presença de tatuadoras jovens muitas vezes é explorada de forma comercial, destacando a aparência em vez da habilidade artística.
Para superar o etarismo, é fundamental adotar medidas que abordem as especificidades de gênero e promovam um mercado mais justo para todos:
Celebrar Mulheres Veteranas:
Desconstruir Estereótipos de Beleza:
Apoiar o Empoderamento Digital:
Enfrentar o Machismo no Mercado:
Educar o Público:
O etarismo que afeta as mulheres na tatuagem é resultado de uma combinação de preconceitos de gênero e idade, mas pode ser combatido por meio de ações coordenadas e uma mudança de mentalidade. Reconhecer o valor das tatuadoras veteranas não é apenas uma questão de justiça, mas uma forma de fortalecer a diversidade e a qualidade do mercado. Ao criar um ambiente mais inclusivo, o mundo da tatuagem pode se tornar um espaço onde mulheres de todas as idades prosperem e continuem a transformar a pele em arte.
O contraste entre o Brasil e outros países ressalta a importância de mudar a mentalidade em relação aos tatuadores veteranos. A experiência não se opõe à inovação; ela a complementa. Um profissional com décadas de carreira acumulou:
Mudar essa realidade exige esforços coordenados entre tatuadores, estúdios e a própria comunidade de clientes:
O etarismo no mundo da tatuagem não é apenas um reflexo da sociedade brasileira, mas um obstáculo que afeta tanto os artistas quanto o próprio mercado. Para superar esse preconceito e criar um ambiente mais inclusivo, é necessário implementar estratégias que abordem tanto a educação do público quanto a valorização ativa dos tatuadores mais velhos. Abaixo, apresentamos uma análise aprofundada das ações que podem ser tomadas para combater o etarismo no setor.
A desconstrução de estereótipos começa com a educação. Muitos clientes desconhecem a riqueza de habilidades que os tatuadores veteranos possuem, e parte disso é reflexo da falta de comunicação sobre o valor da experiência.
Campanhas de Sensibilização:
Divulgação de Trabalhos:
Workshops e Palestras:
Para equilibrar a visibilidade entre jovens artistas e veteranos, é essencial criar espaços onde todos possam apresentar seus talentos e conectar-se com o público.
Marketplaces de Tatuagem:
Reestruturação de Redes Sociais:
Convenções Inclusivas:
O conhecimento acumulado pelos tatuadores mais velhos é um recurso inestimável para o mercado. Promover programas de mentoria não apenas fortalece a comunidade, mas também aumenta o respeito pelos veteranos.
Programas de Mentoria:
Colaborações Criativas:
Reconhecer publicamente a contribuição dos tatuadores mais velhos para o mercado é uma maneira poderosa de combater o etarismo. Isso não apenas reforça seu valor, mas também inspira novos artistas.
Eventos e Homenagens:
Documentários e Livros:
Exposições e Retrospectivas:
Embora os tatuadores veteranos tenham uma base sólida de conhecimento, a constante evolução do mercado exige adaptações. Fornecer ferramentas e incentivos para que eles se mantenham atualizados é essencial.
Além das ações individuais, é necessário que o próprio mercado se reorganize para valorizar a diversidade e a experiência.
Estúdios Multigeracionais:
Políticas de Inclusão:
Combater o etarismo no mundo da tatuagem é mais do que uma questão de justiça; é uma forma de fortalecer o mercado como um todo. Tatuadores veteranos carregam consigo a história, a técnica e a essência da arte de tatuar, enquanto os jovens trazem inovação e novas perspectivas.
Ao implementar estratégias como educação, inclusão digital e celebração do legado, o setor pode criar um ambiente onde a experiência e a inovação coexistem de forma harmoniosa. Esse equilíbrio não apenas beneficia os artistas, mas também eleva a qualidade e a diversidade da tatuagem como arte e profissão.
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